Mal terminou o primeiro turno da eleição e começou o velho chororô.
“Rio do Sul novamente fica sem deputado.” “A capital do Alto Vale não conseguiu eleger um representante.” “A região perdeu força política.”
O lamento é conhecido. Aparece de quatro em quatro anos, quase com a pontualidade das urnas. O que raramente aparece é uma pergunta um pouco mais incômoda:
Que tipo de liderança política os partidos estão construindo e oferecendo ao eleitor de Rio do Sul?
Porque talvez esteja na hora de parar de procurar o problema exclusivamente dentro da urna e começar a procurá-lo antes dela.
Rio do Sul tem cerca de 55 mil eleitores. Não estamos falando de uma pequena comunidade isolada, incapaz de produzir lideranças. Estamos falando da principal cidade do Alto Vale do Itajaí. Ainda assim, eleição após eleição, assistimos aos partidos reclamarem do resultado sem fazer uma autocrítica sobre os nomes, alianças e projetos políticos que apresentam à população.
E não faltam exemplos das curiosas costuras partidárias que o eleitor rio-sulense foi convidado a compreender nos últimos anos.
Na eleição municipal, José Thomé, então no PSD, dividiu chapa com a delegada Karla Bastos, do MDB (mas petista de carteirinha), numa composição que reuniu grupos políticos de trajetórias bastante diferentes. Mais recentemente, Gerri Consoli, que esteve no grupo do PSD, deixou a sigla, foi para o Republicanos e se aproximou politicamente do deputado Jorge Goetten.
Siglas mudam. Alianças mudam. Adversários tornam-se aliados e aliados tornam-se adversários.
Depois, aparentemente, espera-se que o eleitor acompanhe tudo isso sem fazer perguntas.
Talvez seja justamente aí que parte da velha política ainda esteja tendo dificuldade para compreender o eleitor atual.
Durante a apuração das eleições, em participação na Rádio Mirador, o coronel Tonetti e os demais comentaristas demonstraram surpresa diante das expressivas votações alcançadas por nomes como Ana Campagnolo, Júlia Zanatta e Caroline de Toni. Em diferentes momentos, apareceu como explicação a força das redes sociais e o grande número de seguidores dessas candidatas.
“É aquilo que a gente falou, é a mídia, é o seguidor…”
Sem dúvida, redes sociais têm peso na política contemporânea. Mas resumir votações desse tamanho a Instagram, Facebook ou número de seguidores é uma explicação bastante confortável.
Seguidores não aparecem por geração espontânea.
Existe, por trás dessas candidaturas, um trabalho continuado de construção de identidade política, comunicação com o eleitor, defesa pública de determinadas pautas e formação de uma base que acompanha essas figuras muito antes de a urna eletrônica ser ligada.
Pode-se concordar ou discordar das ideias defendidas por elas. Esse não é o ponto.
O ponto é compreender como se constrói um eleitorado.
Quem passa anos falando com determinado público, defendendo posições reconhecíveis e mantendo uma presença política permanente chega à eleição em uma situação muito diferente daquele candidato que reaparece às vésperas do pleito esperando que relações pessoais, estruturas partidárias, cargos, favores ou antigas alianças façam o trabalho por ele.
E é justamente nesse ponto que entra uma das declarações mais interessantes do pós-eleição rio-sulense.
O ex-prefeito José Thomé, ao analisar seu resultado eleitoral, apresentou sua própria interpretação para a derrota.
“Acredito também que por ego elevado, ééé, achando que o poder está acima de todas as coisas, houve uma divisão de um grupo político, e perdeu todo mundo, talvez se tivesse honrado a palavra lá traz, tivesse tido honradez, caráter, isso eventualmente não teria acontecido”
Vale a pena reproduzir suas palavras literalmente, porque elas permitem uma pergunta muito mais interessante do que simplesmente discutir quem “tirou voto” de quem:
De quem é o voto? Do candidato? Do partido? Do antigo prefeito? Do vereador que o apoia? Ou do eleitor?
Talvez uma das maiores transformações políticas das últimas décadas seja justamente a erosão da ideia de que determinados grupos possuem um estoque permanente de votos à sua disposição. Rio do Sul escolheu, e não foram os candidatos apresentados.
O Brasil vive uma mudança na maneira como uma parcela da população acompanha política. Assuntos que durante muito tempo ficaram restritos a economistas, juristas, jornalistas e gabinetes hoje chegam diretamente ao celular do cidadão.
Discute-se inflação. Impostos. Dívida pública. Drex. Aborto. Educação. Segurança pública. Decisões do Congresso e dos Tribunais.
Isso não significa que todo eleitor esteja bem informado, nem que toda informação que circula pelas redes seja verdadeira. Evidentemente não está e evidentemente não é.
Significa apenas que ficou muito mais difícil tratar o cidadão como integrante permanente de um curral eleitoral.
O velho sistema do “eu fiz isso por você, portanto você me deve seu voto” encontra um eleitor com muito mais meios para procurar outras referências políticas.
E talvez seja exatamente isso que algumas lideranças ainda não tenham percebido.
Quando uma candidata conquista centenas de milhares de votos, a explicação mais fácil é atribuir o fenômeno às redes sociais.
Quando um candidato tradicional não alcança a votação esperada, a explicação mais fácil é procurar outro candidato que tenha “levado” seus votos.
Quando uma cidade não consegue eleger um deputado, a explicação mais fácil é culpar a fragmentação dos votos.
Todas essas explicações podem conter alguma parcela da realidade.
Mas existe uma pergunta anterior a todas elas.
Antes de reclamar que Rio do Sul não elegeu um deputado, talvez os partidos precisem explicar o que fizeram, nos quatro anos anteriores, para construir uma liderança que o eleitor espontaneamente quisesse levar até a Assembleia Legislativa ou a Câmara dos Deputados.
Porque voto não é herança.
Não é favor a ser retribuído.
Não pertence a partido, prefeito, vereador ou liderança comunitária.
Pertence ao eleitor.
E se, depois de mais uma eleição, Rio do Sul novamente se pergunta por que não conseguiu eleger um deputado, talvez esteja fazendo a pergunta errada.
A pergunta deveria ser: que lideranças os partidos de Rio do Sul construíram para merecer os votos que agora reclamam não ter recebido?