O dia 22 de setembro marca o Dia Municipal da Pacificação dos Indígenas Laklãnõ/Xokleng em Ibirama, relembrando o contato histórico ocorrido em 1914 entre Eduardo de Lima e Silva Hoerhann e o povo Xokleng às margens do rio Hercílio.
A aproximação em 1914 pacífica ajudou a frear os violentos massacres promovidos pelos “bugreiros” contra os indígenas durante o avanço da colonização europeia no Alto Vale.
A criação da reserva (que originou a atual Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ) garantiu a sobrevivência da comunidade, mas o confinamento alterou profundamente o modo de vida tradicional, baseado na caça e na livre circulação dos indígenas.
A defesa da narrativa anti-colonialista e indigenista tradicional, enxerga que a pacificação e a expansão ocidental dos colonos europeus, foi ruim e enxerga o processo inteiramente sob a ótica da invasão, violência sistemática e desumanização causada pelos europeus, chamando-os de invasores das terras dos índios.
Porque a visão hegemonica do “mito do bom selvagem” está profundamente enganada
O mito do “bom selvagem” — a ideia romântica de que o ser humano em estado pré-civilizatório vive em perfeita harmonia pacífica com a natureza e com os semelhantes — é frontalmente desmentido pela antropologia e pela história real.
Sociedades sem instituições formais de resolução de conflitos não viviam em um Éden, mas sim sob a lógica implacável do que Thomas Hobbes chamou de estado de natureza: um cenário de competição constante por recursos escassos (como territórios de caça, água e frutos), onde a ausência de leis e de leis de propriedade resultava em conflitos endêmicos, guerras tribais e violência permanente.
Os índios que estavam aqui eram extremamente agressivos, armavam emboscadas e assassinavam todos que eles consideravam inimigos. Não só os europeus, como também outras tribos indígenas.
Historicamente, antes e durante o contato com os colonizadores europeus, os Xokleng (assim como vários outros povos indígenas da região Sul, como os Kaingang) tinham um histórico de conflitos intensos não apenas com os homens brancos, mas também com outras etnias indígenas e com os grupos de tropeiros que não necessariamente eram brancos.
As disputas por territórios de caça, coleta e áreas de expansão entre diferentes grupos indígenas (como os próprios Xokleng e os Kaingang ou os Guaranis) eram comuns na bacia hidrográfica do Vale do Itajaí. Para os Xokleng, a guerra e a retaliação faziam parte da estrutura social e da sobrevivência. Quando perderam espaço para a frente de colonização europeia, eles aplicaram contra os colonizadores e os governos a mesma lógica implacável de conflito que historicamente usavam contra rivais territoriais — com o agravamento de que, contra os colonos europeus eles armavam emboscadas, roubavam e assassinavam colonos e filhos de colonos.
Qual é a tecnologia que o europeu trouxe que gerou civilização e ordem?
Com o avanço tecnológico e institucional, a civilização ocidental desenvolveu ferramentas fundamentais para mitigar essa violência crônica, sendo a propriedade privada a tecnologia que resolve a disputa por recursos escassos (terra) e o marco regulatório de terras que trouxe as soluções mais eficazes já criadas para a escassez de recursos. A propriedade privada resolve o conflito por terra através de três mecanismos centrais:
- Eliminação da Ambiguidade: Em economias de subsistência baseadas no uso comum ou tribal, qualquer sobreposição de territórios gera disputas letais, pois os limites são difusos e dependem exclusivamente da força para serem mantidos. A demarcação jurídica e a propriedade privada estabelecem balizas claras de quem responde pelo quê e quem é dono do quê.
- Incentivo à Cooperação e ao Comércio: Ao invés de obter recursos estritamente pela força, roubo ou guerra como os índios faziam entre si (arcando com o custo da violência constante), a propriedade privada permite que os indivíduos negociem, comprem, vendam e cooperem de maneira voluntária e pacífica as terras que são suas. O capital substitui a guerra tribal como forma de adquirir bens.
- Superioridade Tecnológica e Militar: A capacidade europeia de colonização e expansão não se deu por acaso, mas pelo desenvolvimento de tecnologias complexas — tanto materiais (metalurgia, infraestrutura, armas de fogo) quanto institucionais (direito contratual, contabilidade, registros de imóveis e Estado de Direito). A tecnologia militar, embora dura, era e ainda é reflexo de uma sociedade estruturada em cadeias complexas de cooperação que superavam a organização tribal, violenta, desorganizada e fragmentada.
A propriedade privada e o arcabouço legal de delimitação de terrenos surgiram exatamente para substituir a lei do mais forte, típica das disputas tribais por territórios escassos, por um sistema onde o litígio é resolvido por contratos e regras civilizatórias, permitindo que populações maiores coexistissem em um mesmo espaço geográfico sem a necessidade de aniquilação mútua.
Esta tecnlogia foi trazida por alienígenas ou por outras tribos?
Progressistas tendem a tratar como se a colonização europeia tenha sido feita por aliens, e não por outras tribos indígenas só que europeias e brancas, que migraram para o local. Os europeus que chegaram às Américas não eram seres extraterrestres, deuses ou uma raça fundamentalmente distinta, mas sim um grupo tribal humano como qualquer outro — originário do continente europeu — que, através de séculos de evolução cultural, econômica e tecnológica, desenvolveu uma capacidade militar e organizacional avassaladora.
Em termos estritamente históricos e evolutivos, a expansão europeia para as Américas pode ser vista como o encontro (e o choque) entre diferentes estágios de desenvolvimento civilizatório de tribos indígenas de continentes diferentes. Alguns pontos ajudam a ilustrar essa perspectiva:
- A tribo europeia e a expansão: Assim como os povos nativos das Américas (ou da África, Ásia e Oceania) formavam tribos, confederações e impérios que lutavam entre si por hegemonia e recursos, os reinos europeus faziam exatamente a mesma coisa. A diferença não era de “natureza humana”, mas de escala e ferramentas. Os europeus passavam séculos guerreando entre si mesmos (em guerras civis, disputas dinásticas e conflitos territoriais intestinos), o que forçou um aprimoramento constante da arte da guerra, da metalurgia, da engenharia naval e da estratégia militar.
- A vantagem tecnológica e institucional: O que determinou o desfecho do contato não foi uma suposta superioridade moral ou biológica, mas a posse de um “pacote tecnológico” acumulado. Isso incluía o domínio do ferro e do aço, armas de fogo, animais de tração e de montaria (como cavalos, que haviam sido extintos nas Américas milênios antes), além de sistemas complexos de escrita, contabilidade e navegação oceânica de longo curso.
- O choque de realidades: Quando essa “super-tribo” europeia chegou com tecnologias de comunicação globalizadas para a época, cartografia avançada e armamentos de repetição ou de pólvora, o descompasso tecnológico era intransponível para sociedades que ainda operavam majoritariamente com tecnologias da Idade da Pedra ou do Cobre (uso de pedra polida, arcos, flechas e lanças). Era o encontro entre uma sociedade com capacidade de projeção de força transcontinental e populações locais restritas ao seu horizonte regional.
A história da conquista não é uma fábula mágica de invasores alienígenas, mas o resultado brutal e previsível da colisão entre povos em patamares tecnológicos drasticamente diferentes. A tribo que acumulou mais capital, tecnologia e armas acabou por subjugar as demais, seguindo a lógica implacável que vigorava em praticamente todas as eras da história humana, e que ainda nos dias atuais é a regra implacável.
Então sim, os europeus pacificaram essa tribo, porque ela não era pacífica, ela era agressiva e atacava tribos rivais. Foi por causa da diplomacia do europeu e também por conta da tecnologia militar superior que ele impos a ordem e o respeito a propriedade privada, valor este tão caro e esquecido nos dias atuais.
E porque a visao hegemonica trata os indios como seres angelicais?
A perpetuação dessa visão hegemônica — que frequentemente retrata os povos indígenas como figuras angelicais, puras e completamente inofensivas — não é um acidente, mas o resultado de um processo cultural, político e ideológico consolidado ao longo de décadas por políticos da esquerda progressista e marxista.
Vários fatores explicam por que essa narrativa se tornou dominante nos meios acadêmicos, midiáticos e educacionais:
- O Eco do Romantismo do Século XVIII: A raiz dessa postura remonta ao movimento romântico europeu e a pensadores como Jean-Jacques Rousseau, que popularizaram o conceito do “bom selvagem”. A ideia era usar o nativo não como um ser humano real com virtudes e defeitos, mas como uma metáfora política para criticar os excessos, a corrupção e os problemas da civilização industrial moderna. O índio passou a ser visto como o símbolo de uma inocência perdida.
- A Reação Ideológica e o Maniqueísmo Histórico: No debate público contemporâneo, há uma tendência de simplificar a história dividindo-a rigidamente entre “opressores” e “oprimidos”. Para sustentar essa narrativa de forma emocionalmente apelativa, qualquer nuance sobre os conflitos internos, a violência tribal pré-colombiana ou a dureza das lutas por território é apagada. Se o grupo derrotado for pintado como imperfeito ou violento, a narrativa maniqueísta perde a força.
- O Mito da Harmonia Ecológica Inata: Atribui-se frequentemente aos povos originários uma sintonia mística e perfeita com a natureza, como se pertencessem a uma esfera espiritual intocada. Embora muitas culturas tivessem profundo respeito pelo meio ambiente por questões de subsistência, a ideia de que viviam sem causar impacto ambiental ou sem disputar brutalmente os recursos da terra ignora a própria dinâmica de sobrevivência de qualquer grupo humano na história.
- A Indústria da Vitimização e o Capital Político: A romantização extrema serve a propósitos jurídicos e políticos atuais (como demarcações de terras e disputas fundiárias). Apresentar os indígenas exclusivamente como vítimas passivas e puras confere maior peso moral e retórico às pautas de ativistas e organizações que utilizam essa imagem para moldar a opinião pública e influenciar decisões estatais. A narrativa de opressão perpétua cria uma demanda constante por “salvadores”. Nesse modelo, grupos políticos de esquerda e ativistas se posicionam como os únicos defensores legítimos dos “vulneráveis”. A “causa indígena” deixa de ser sobre a realidade material das comunidades e integração na sociedade atual, e passa a funcionar como uma máquina de gerar apelo moral, comoção pública e, consequentemente, votos, cargos e poder político, as custas da pobreza e subdesenvolvimento das famílias descendentes indígenas, evitando que elas tenham real dignidade.
- O Clientelismo Institucional e ONGs: A dependência jurídica e estatal gerada por políticas protecionistas e demarcações perpétuas mantém as populações indígenas isoladas de dinâmicas econômicas modernas, tornando-as dependentes de burocracias estatais e de organizações não governamentais (ONGs). Em vez de autonomia e integração produtiva, o resultado seria a pecha de “massa de manobra” para interesses corporativos, ideológicos ou partidários.
- Inversão de Prioridades: Sob o disfarce de um suposto humanismo ou justiça social, as agendas identitaristas frequentemente ignoram problemas reais e urgentes das próprias comunidades (como saneamento, saúde, educação de qualidade e segurança jurídica individual) para focar em pautas abstratas, de alto valor simbólico e de forte apelo retórico nas redes sociais e na grande mídia.
Para essa perspectiva, o romantismo histórico e o identitarismo contemporâneo formam um ciclo simbiótico: inventa-se ou exagera-se a figura do “bom selvagem oprimido” para justificar intervenções estatais contínuas, cuja principal utilidade final é consolidar influência política e dividendos eleitorais para grupos progressistas.
Conclusão: A Superação do Mito em prol da Realidade
Em última análise, compreender a história real das regiões de colonização — como o Vale do Itajaí e o processo envolvendo os Xokleng — exige despir o passado de romantismos ideológicos e lentes maniqueístas. A expansão humana nunca se deu em um vácuo pacífico ou em um Éden de harmonia inata, mas por meio do choque dinâmico entre sociedades em diferentes estágios de organização, tecnologia e capacidade militar e institucional.
A substituição da volatilidade do estado de natureza e das guerras tribais endêmicas pela ordem jurídica, pelo respeito à propriedade privada e pelo livre comércio não representou a destruição arbitrária de uma utopia, mas o triunfo de ferramentas civilizatórias que permitiram a coexistência pacífica e o desenvolvimento de populações em larga escala.
Manter viva a narrativa do “bom selvagem” e a instrumentalização política da vitimização serve apenas a interesses ideológicos contemporâneos, perpetuando dependências e distorcendo a compreensão histórica. O verdadeiro avanço civilizatório reside em encarar os fatos como eles ocorreram, valorizando a segurança jurídica, a integração econômica e a ordem que tornaram possível o progresso e a prosperidade para todos os habitantes da região, assim como o processo natural de evolução dos povos.
Não dá para querer manter os indígenas na idade da pedra para sempre.